• O Antagônico

Marabá. A Morte do Coronel. O Hgumba. A Unimed. O Hospital da Mulher e a Negligência



Hoje se comemora, em todo território nacional, o Dia do Exército Brasileiro. Mas, em Marabá, a família de um oficial não tem motivos para festa !! Vejam só !! O Exército instaurou sindicância para apurar as circunstâncias da morte do coronel Josiberto Joel Oliveira Marinho, comandante da Base Administrativa da 23ª Brigada de Infantaria de Selva, que faleceu dia 09 de junho de 2021, no hospital Saúde da Mulher, em Belém, vitimado por Covid 19.


Após o falecimento, familiares do oficial apresentaram denúncia na 23ª Brigada apontando uma série de erros e contradições que contribuíram, decisivamente, para o óbito de Josilberto. Totalizados mais de 30 anos na ativa, podendo ir à reserva, o oficial optou por permanecer no serviço ativo do Exército. No ano de 2020, com o advento da pandemia de corona virus, atuou de forma presente nos comitês de organização de enfrentamento à pandemia, auxiliando na coordenação das ações conjuntas entre os atores governamentais e na ação do efetivo do Exército no Sul do Pará. No ano de 2021, assumiu o cargo de comandante da Base Administrativa.


No dia 14 de maio do ano passado, o coronel, segundo familiares, começou a sentir os primeiros sintomas da Covid 19, tendo dado entrada no dia 18 no Hospital de Guarnição de Marabá (HGuMba), queixando-se de febre. No dia 21 de maio, o paciente fez a primeira tomografia, sendo internado em seguida. Dois dias depois, em 23 de maio, após uma alta equivocada, o paciente deu entrada novamente no Hospital Militar de Marabá, sendo encaminhado em seguida para a UTI de um hospital da Unimed. A partir dai começaram os problemas, com as primeiras tentativas de transferir o paciente, em UTI aérea, para um hospital de Belém.


No dia 25, o estado de saúde do coronel piorou e o mesmo foi intubado. Só no dia 26, o paciente foi transferido, em uma UTI aero móvel, para Hospital Saúde da Mulher. No dia 08 de junho, com quadro grave de congestionamento da atividade renal e depois de iniciar procedimento de hemodiálise lenta, o paciente teve uma parada cardíaca, vindo a óbito no dia seguinte, 09 de junho.


A família afirma que o hospital militar em Marabá foi negligente, uma vez que em passagem pelo (HGUMBA), o coronel foi atendido em consultas de triagem e, a despeito de febre intermitente, não lhe foi prescrito qualquer procedimento instrumental de exame para estudo e análise dos pulmões. Muito pelo contrário, um médico do hospital, que fez uma auscultação por estetoscópio simples – procedimento insuficiente para constatação de comprometimento pulmonar – afirmou, equivocadamente, que o paciente não tinha qualquer problema pulmonar.


A esposa do militar teria solicitado um exame mais minucioso, como a tomografia computadorizada, porém teve seu pedido rechaçado. No dia 21 de maio o paciente obteve finalmente uma prescrição de realização de um exame de Tomografia. Aquela altura, o nível de comprometimento pulmonar revelado pelo exame, em 75%, assombrou a equipe médica do Hospital Militar, que defendeu sua imediata internação e transferência sumária para hospital conveniado munido de UTI. O argumento era de que o alto grau de comprometimento pulmonar inspirava um cuidado extremo e a necessidade de UTI em caso de rápido agravamento.


Na visão da família, o sistema de saúde do exército na guarnição de Marabá lavou as mãos acerca da integridade física de seu oficial, não apenas negando a prescrição de um simples exame de tomografia, mas também não acolhendo-o em momento algum, transferindo-o, quando já em situação crítica, para unidade externa. O paciente foi transferido para o hospital da Unimed em Marabá, conveniado ao Fundo de Saúde do Exército, Fusex. Ali, internou-se em bom estado de saturação, respirando normalmente e caminhando. Era a noite de 21 de maio.


A permanência no hospital da Unimed teve duração de sexta-feira, 21 de maio, a domingo pela manhã, 23 de maio, em cujo período houve uma sucessão de desencontros acerca do tratamento. O exemplo fulcral acerca dos equívocos levantados no tratamento do paciente na unidade da Unimed em Marabá foi lavrado na alta exarada na manhã do dia 23 de Maio: o paciente, que dois dias antes deu entrada na unidade em razão de um exame de imagem de pulmão com evidência de altíssimo comprometimento pulmonar, pasmem, teve alta médica sem a realização de qualquer novo exame de imagem do órgão. Uma vez em casa, o paciente relatou ter sentido febre e desconforto respiratório na noite anterior à manhã da alta. Segundo sua descrição, sob alta temperatura corporal, teve sua saturação respiratória diminuída no decorrer da noite.


De forma explicitamente antiética, as comunicações Unimed-Hgumba-Brigada-família foram preenchidas por inverdades: entre outras coisas, afirmava-se que o paciente teria tido alta a pedido próprio, ou alta a pedido da família. Estas situações sequer existem enquanto jargão e prática médico administrativa, e sua utilização em si já configuraria grave erro médico. Todavia, tais pedidos, seja da família, seja do paciente, jamais existiram.


O paciente, uma vez fora do hospital e em companhia da família, enviou mensagem a seu chefe reafirmando não haver solicitado alta médica. A família não foi avisada da alta hospitalar.

"O plantonista, sabendo que a filha do paciente haveria de realizar visita ao hospital, mandou descerem o paciente em cadeira de rodas à saída do hospital. A filha o encontrou desacompanhado e sem qualquer máscara ou aparato de proteção, donde o recebeu e levou à residência.”

Diz uma nota enviada pela família a O Antagônico, frisando que em casa, após o almoço, o paciente queixou-se de febre.


Deitado de bruços sobre sua cama, apresentava chiado e gemidos ao respirar. Sob aplicação de oxímetro apresentou saturação de 84%. Diante de quadro tão grave, coube à família acorrer novamente ao hospital militar, onde foi imediatamente detectada a necessidade de terapia VNI (balão de oxigênio), possibilidade a qual o Hospital da Unimed sequer havia aventado.


Do Hgumba, o paciente foi mais uma vez mais encaminhado ao hospital da Unimed, de onde havia recebido alta 12 horas antes. A esta altura, a pele dos membros inferiores do paciente já se encontrava salpicada de pintas vermelhas, um sinal precoce de ocorrência de trombos coagulativos.


A permanência no Hospital da Unimed, agora já em caráter especulativo eivado de desconfianças mostrou-se um processo de pura aflição à família. Era desejo dos familiares que o paciente, caso permanecesse em Marabá, fosse encaminhado ao Hospital Regional, o qual detém melhores recursos e expertise para lidar com casos graves de covid-19.


Assim, houve um agravamento no estado do paciente de domingo (23 de maio) a segunda-feira (24 de maio). Na manhã de segunda, , a par da piora do estado do paciente, a família se mobilizou no sentido de propiciar a transferência a outra unidade com mais recursos. A comunicação com as instâncias de comando da Brigada logrou a transferência a Belém, muito embora o comando possuísse, alimentado por orientações de conselheiros médicos do Hgumba, a falsa concepção de que o tratamento auferido em hospital de alta complexidade da capital seria exatamente o mesmo daquele gozado na unidade da Unimed em Marabá.


De acordo com a família, as providências pertinentes à transferência a Belém foram baldadas, entretanto, pela opinião “equivocada e arbitrária” trazida por oficial médico do Hgumba - não por acaso um dos conselheiros da direção do hospital e, por conseguinte, do comando da Brigada - que sentenciou de maneira falaciosa que o paciente seria necessariamente entubado a fim de que pudesse ser transportado em UTI aeromóvel.

“Coincidentemente, tal profissional (capitão médico Fábio) lembrou-se de corrigir a falsa sentença proferida apenas após o cancelamento da vinda da UTI aeromóvel, retificando o erro ao explicar que a equipe de remoção iria em realidade avaliar a necessidade de entubação para viagem.”

Diz a nota da família frisando que o paciente já possuía vaga para transferência ao Regional, que não se concretizou porque o médico plantonista José Rogério, negou-se a produzir o relatório necessário ao seguimento da transferência, com o argumento de que a incumbência de produção do relatório caberia ao Fusex e não à unidade onde estava internado o paciente.


A família afirma que a negligência do exército ficou evidente, uma vez que, em nenhum momento, foi aventada pelo Fusex e pelo sistema de saúde do Exército a transferência do militar para algum hospital de alta complexidade, como o Hospital das Forças Armadas, em Brasília, ou o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. O próprio hospital militar do exército em Porto Alegre, assegurou vaga em UTI ao paciente, caso requerido. No entanto, o sistema de saúde militar optou pela transferência a Belém, onde o hospital do Exército (HgeB) não possuia mais UTI-Covid ativa e, portanto, deveria se proceder necessariamente a transferência a unidade hospitalar conveniada.


“Um dos conselheiros do diretor do hospital (Capitão médico Dias) mencionou à esposa do paciente que o valor cobrado pelo acionamento da UTI aeromóvel (R$80.000,00), por elevado, representava alto custo ao sistema de saúde do Exército, além de incidir pesadamente em cobrança extra do fusex no contracheque da família do paciente.”

Disse um parente do coronel a O Antagônico.


A partir do domingo (dia 30 de Maio), o quadro do paciente voltou a sofrer reveses sucessivos. Nesta mesma semana ocorreu o primeiro evento de desentendimento funcional entre família, Fusex/Hgumba e Hospital saúde da Mulher, HSM. Nesta primeira ocorrência, foi revelado à família uma dificuldade intransponível do HSM em obter do FUsex a autorização para realização de um exame de Tomografia por BioImpedância: o relato foi efetuado por médico durante o boletim à família, após vários dias e tentativas infrutíferas do HSM em obter a autorização do plano de saúde militar.


O imbróglio situava-se no argumento do Fusex de que o procedimento não encontrava-se na lista daqueles autorizados pela ANS (Agência Nacional de Saúde) para aprovisionamento do FUSEX. Foi apenas após negociações entre os comandantes generais da 23ª Brigada e da Região Militar, com a devida comunicação com autoridades em Brasília, que o procedimento foi autorizado.


A sequência de agravamentos da doença culminou com a sexta-feira (04 de junho), na qual obteve-se a notícia tétrica de que o paciente não apresentava sinais neurológicos. Na noite do dia 08 de maio, o paciente, depois de intenso sofrimento, teve parada cardíaca, sendo confirmada a morte no dia seguinte.

1.820 visualizações0 comentário