• O Antagônico

O Coronel de Itaituba, A Fortuna, Os Processos, As Ameaças e o Poder Absoluto


Reeleito com uma votação recorde em Itaituba, uma das fronteiras da destruição na Amazônia, o prefeito Valmir Climaco de Aguiar (MDB) acumulou atividades ao longo de sua carreira: madeireiro, garimpeiro, prefeito, empreiteiro, pecuarista e empresário da comunicação. Em paralelo, acumulou processos. E muitos processos. Por desmatamento, grilagem, omissão de socorro e até tráfico. Por alguns se tornou mais conhecido.


Apareceu em agosto do ano passado no Fantástico, o programa dominical da Globo, falando dos impactos do mercúrio no Rio Tapajós, para ele “conversa de gente besta”. Com oposição o prefeito não precisa se preocupar. Até porque ela é letra morta em Itaituba, onde todos batem continência ao Sinhozinho Malta Amazônico.

Além das muitas participações em negócios, o prefeito do MDB em Itaituba, o MDB do governador Helder Barbalho e do cacique Jader Barbalho, acumula acusações: de invasão e desmatamento em reserva ambiental, de omissão em morte de garimpeiro, de envolvimento com tráfico de drogas, de ameaçar servidores e fiscais e de não pagar os direitos trabalhistas de seus funcionários, das fazendas à emissora de televisão.


Conhecido pela natureza rude, Climaco, ao abrir a boca, nunca é discreto. Em junho do ano passado, disse que receberia “à bala” funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai) que entrassem em sua fazenda para constatar sobreposição com terra indígena. Menos de um mês depois, a Polícia Federal encontrou 580 quilos de cocaína na Fazenda Buburé, de sua propriedade, além de dois fuzis, uma pistola, munições, uma luneta de precisão para uso do fuzil. Nesse caso, a relação com a fazenda no caminho para Jacareacanga, uma das três que ele informa ao TSE possuir na Rodovia Transamazônica, era menos atenta: disse que ela tinha sido invadida.


O temperamento explosivo e arrogante do político, que já deu um tapa no rosto de um trabalhador em plena audiência na Justiça do Trabalho, nem sempre favoreceram Climaco. No início do primeiro mandato, o prefeito levou uma violenta surra de um motorista de caminhão, depois de tentar intimidar o mesmo. Ele também é protagonista de episódios folclóricos na cidade, autorizando a cirurgia em uma cadela, no Hospital Municipal de Itaituba. Coisas do coronelismo.

Cearense de Ubajara, Climaco é sócio com sua esposa, Solange de Moreira de Aguiar, da V.C.A. Comunicações Ltda, com participação na TV Liberal Itaituba, retransmissora da Globo. O prédio onde está a televisão, na Travessa 13 de Maio, em Itaituba, também é do prefeito — embora isso não apareça nos dados do TSE — e abriga a Rádio O Dia, de Romulo Maiorana Júnior, o Rominho. É o mesmo endereço que a TV Liberal informa na cidade. Rominho e os donos da TV Liberal são da mesma família, há décadas à frente de uma das principais retransmissoras da Globo no país.

Fundada em 1993, quando Climaco era um jovem garimpeiro de 33 anos, a afiliada da TV Liberal recebeu pelo menos R$ 113.904,52, entre 2000 e 2017, de anúncios publicitários do governo federal. A maior parte dos repasses identificados (61%) está apontada em relatórios do Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP), órgão do governo federal que controlava a verba publicitária e foi extinto pelo governo Michel Temer. O levantamento encontrou também verbas da Eletronorte (11% do total), seguidas pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Eletrobras, Ministério da Saúde, Petrobras, Ministério do Trabalho e Banco do Brasil, nesta ordem.

Dos 108 processos dos quais faz parte, Valmir aparece com a V.C.A. Comunicações em 18 processos trabalhistas, por falta de pagamento de direitos aos seus trabalhadores, como a contribuição para a Previdência. O mais rumoroso no município foi com o jornalista Emilio Carlos Picardo, que trabalhou por 23 anos para a emissora. Foram mais de duas décadas de INSS não recolhido que a Justiça determinou que deve ser pago com bois — esses que jamais apareceram, desde 2004, nas declarações de bens do político.

Agora menos que um milionário, Climaco disputa a prefeitura de Itaituba desde 2008, mas só conseguiu vencer em 2016 e 2020. Nesse tempo, a fortuna do prefeito foi desaparecendo das suas declarações. Em 2004, ele não declarou nenhum bem. Em 2008, apresentou um patrimônio de R$ 1.897.950,47. Em 2020, só metade: R$ 948.634,23. Algumas atividades sempre se mantiveram nas listas entregues à Justiça Eleitoral: a madeireira, a empreiteira, as fazendas e a V.C.A. Comunicações.

Na política local, Valmir Climaco sempre trabalhou para conseguir aliados ecléticos, mesmo que eles atuem em direções opostas. Ele é partidário do governador Helder Barbalho (MDB) e do seu pai, o senador Jader Barbalho (MDB), desde suas primeiras tentativas de se eleger.


Desde 2006, Climaco desistiu de ter programação da TV local e deixou a cargo da TV Liberal, e da Globo, a programação da retransmissora. Ao mesmo tempo, continua sendo correligionário de Jader, que é o chefe de um conglomerado de comunicação com rádios, TV Bandeirantes do Pará e o jornal Diário do Pará, controlado pelo outro filho do senador, Jader Barbalho Filho, o Jaderzinho. Ou seja, uns retransmitem a Globo; outros, a Band.


A tranquilidade do Climaco mudou com a divisão na família Maiorana que rachou o conglomerado de empresas de comunicação paraense. O pivô da briga foi o primogênito, Romulo Maiorana Júnior, conhecido como Rominho. Os irmãos, liderados pelo atual presidente do Grupo Liberal, Ronaldo Maiorana, não perderam tempo em se aliar com o grupo de Helder Barbalho, abocanhando uma polpuda fatia do bolo do governo.


O velho Romulo Maiorana, de quem foi herdado o império local, era dono dos tradicionais regatões que cruzam a bacia amazônica vendendo alimento, roupas, bugigangas e todo tipo de mercado para os povos ribeirinhos. Transformou-se num poderoso magnata local da comunicação. Os herdeiros de Maiorana tiveram um litígio em 2017 e o grupo se dividiu formalmente em 2018. A TV Liberal, os jornais Liberal e Amazônia e rádios em Belém, Castanhal e Soure ficaram com os cinco irmãos. Segundo o Diário do Pará, de Jader, o dissidente Rominho, que até hoje mantém oposição ferrenha ao clã Barbalho, é dono do grupo Roma News e assumiu o controle de rádios em Belém, Marabá, Itaituba e Castanhal, além da ORM Cabo, uma operadora de cabos de internet e TV por assinatura.


Condenado por desmatamento ilegal em área grilada ao longo dos anos, Valmir Climaco usou o poder que lhe concede a administração municipal, em 2019, para ser o protagonista político de mais uma invasão a reservas ambientais. Ele autorizou a construção da ponte de 339 metros dentro da reserva do Jamanxim.

O histórico de desprezo de Climaco às florestas nativas e à União — das terras públicas à Marinha — conta com uma recente condenação de quatro anos e nove meses de prisão por destruição de reserva. O processo tem mais de onze anos. Ele foi denunciado em 2008 pelo Ministério Público Federal (MPF) sob a acusação de destruir 746 hectares de floresta nativa em área de preservação, na Gleba Arraia, de domínio da União. A propriedade em Altamira, a Fazenda Serra Azul, não consta da declaração de bens entregue em 2004, ano do crime ambiental.

A multa dada naquele ano pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foi de R$ 1 milhão. Ele chegou a depor em uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso, a CPI da Biopirataria, no ano seguinte — enquanto recebia, por meio de sua empresa de comunicação, verba publicitária para a retransmissora da Globo. Naquela ocasião, os parlamentares acusaram-no de, aliado a um funcionário do Ibama, resgatar a madeira retida após a fiscalização no pátio do órgão em Itaituba.

Na ocasião da multa, Climaco ameaçou os funcionários do Ibama. E chamou-os de corruptos. O comportamento se repetiu quinze anos depois, em 2019, quando, em audiência pública sobre a presença de garimpo em terras indígenas com a presença de funcionários da Funai, o prefeito recomendou aos moradores “que recebam a equipe [da Funai] à bala”. O resultado das ameaças foi uma denúncia do Ministério Público Federal.

As ações trabalhistas percorrem a carreira de Valmir Climaco como empresário ao longo de suas diversas atividades. Entre os processos envolvendo suas fazendas está o de uma senhora que prestou serviços de cozinheira por dezesseis meses — sem nunca ter recebido pelos serviços. Em outro, um técnico de manutenção de máquinas trabalhou por três meses em sua madeireira. Igualmente sem receber salários.

Mas a mais grave acusação relacionada a trabalhadores contra o prefeito de Itaituba é o processo de omissão de socorro movido pela família do garimpeiro Rodrigo Chaves Camargo. Ele morreu soterrado num buraco de 20 metros de profundidade no garimpo Bom Jesus, em 2009. Junto com ele, outro garimpeiro, identificado apenas como Gregue, também faleceu.

Testemunhas contam na ação que Rodrigo “se refugiou nas galerias da mina aguardando socorro que não ocorreu”. Elas explicam o motivo: o réu, Valmir Climaco, “suspendeu as buscas iniciadas pelos próprios garimpeiros”. Durante o processo, os companheiros se diziam “perplexos” diante da ordem do prefeito de Itaituba de cessar a sucção de água do túnel. E por ele não ter atendido ao pedido do Corpo de Bombeiros para usar o material da sua empresa para tentar o resgate. Três anos depois, a Justiça fechou um acordo com a família de Rodrigo pelos danos que a morte do trabalhador causou à família: R$ 15 mil. Cerca de um quarto do valor registrado por Climaco no TSE, em 2020, para um de seus currais: R$ 58.966,50.


O programa de governo do fazendeiro Valmir Climaco, registrado na Justiça Eleitoral, traz várias ações voltadas para o agronegócio, com destaque para a produção de grãos, e na abertura de diversas vicinais — uma política que favorece os proprietários rurais. Entre os demais itens de sua plataforma está “o incentivo ao plantio de grãos em grandes escalas”. E mais: o fomento a programas para implantação e ampliação da agroindústria; a criação de parcerias junto às empresas privadas de grãos, com auxilio técnico para cultivo de soja, milho, arroz e feijão; a criação de uma política de orientação “para o licenciamento ambiental das atividades empresariais”; e a busca de parcerias públicas e privadas para criar parques industriais.


Em uma reportagem publicada no Youtube, o pecuarista deu a entender por que está preocupado com essas demandas: sua intenção é começar a plantar soja e milho. Valmir Climaco de Aguiar não está sozinho. Possui apoio de governos, de empresários, fazendeiros, garimpeiros. E de partidos: a coligação que apoiou sua reeleição é integrada por MDB, Avante, DEM, PP, PRTB, PSL, PT, Republicanos e Solidariedade. Trocando em miúdos, tá tudo dominado !!!

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