• O Antagônico

O Gordo Solto. O Irmão se Entrega à PF. A Família na Cadeia. As Conversas e A Máfia Italiana



Na noite desta segunda-feira, 23, na véspera de Nicolas Tsonstaski retornar ao regime de prisão domiciliar, através de liminar concedida pelo ministro do STf , Dias Tofolli, o irmão do operador do esquema das OSs, José Bruno Tsontakis Morais, se entregou na sede da Polícia Federal em Belém. Ele se juntou ao resto da família que segue encarcerada: José Arnaldo Izidorio Morais, pai de Nicolas, a esposa Ana Caroline Lopes de Oliveira e o tio Alexandre Jean Tsontakis.


A operação da PF no Pará, realizada semana passada, levou para a cadeia boa parte das pessoas que compõem a chamada Quadrilha das OSs, que saqueou os cofres da saúde, com contratos fraudulentos com a Sespa, na gestão de Helder Barbalho. As ramificações da quadrilha das OSs tinham sustentáculos no Pará, que envolvia de padre a governador.


Ao analisar os diálogos entre Manoel Rodojalma, gerente de Nicolas Tsontakis, e Gilberto Torres, responsável pela gerência do Instituto Panamericano de Gestão, que geria os hospitais regionais de Santarém e Itaituba, a PF concluiu que era evidente a utilização da empresa Minotauro, de propriedade de Nicolas, para ocultar e dissimular os valores desviados das Organizações Sociais. Gilberto evitava falar diretamente com Nicolas, tratando, na maioria das vezes, com Manoel. Isso se dava, dentre outros motivos, para não haver vinculação entre Gilberto – gestor financeiro do IPG – e Nicolas – operador financeiro do esquema criminoso.

No dia 12 de agosto de 2020, Manoel mandou mensagem para Gilberto dizendo que precisava de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais). Gilberto transferiu o valor para a conta da Minotauro.

Gilberto: Bom dia, Manoel! não caiu o dinheiro da SESPA nem ontem, nem hoje. Eu tenho reunião agora 11 horas para discutir o aditivo do Itaituba, assim que eu sair de lá eu te dou notícias.

Em 27 de agosto de 2020, Manoel solicita a Gilberto que encaminhe valores do IPG para várias contas. Em especial, Manoel pede que seja transferido R$ 1.000.000,00 (Hum milhão de reais) para a conta da Minotauro. Após as transferências realizadas, Gilberto envia cópia dos comprovantes como forma de prestação de contas, oportunidade em que se pôde confirmar que a transferência foi efetuada conforme solicitado.

Todos os passos do grupo criminoso tinham um pano de fundo: O Posto João Paulo II, situado em Capanema, que apesar de não estar em funcionamento, movimentou milhões de reais através de Nicolas, o administrador, em parceria com seu pai, José Arnaldo Izidoro Moraes. O posto está registrado no nome de Alexandre Jean Tsontakis, tio de Nicolas e Raimundo Rodrigues da Silva.

Em menos de 2 anos, de janeiro de 2019 a setembro de 2020, o posto, mesmo fechado, movimentou, ao todo, quase 35 milhões de reais, sendo, mais precisamente, R$ 16.990.654,62 em crédito e R$ 18.991.364,24 em débito; circunstância essa que, certamente, supera em demasia a movimentação financeira esperada de um posto de gasolina localizado no interior do Pará.

Em uma análise mais minuciosa da movimentação financeira, percebe-se que o maior volume de transação financeira do posto se dá, justamente, com os investigados que compõe o grupo de lavagem utilizado por Nicolas, como demonstrado abaixo:

  • CARLOS AUGUSTO CARLOS AUGUSTO DA SILVADA SILVA R$ 3.297.483,00 95

  • MINOTAURO GROUP EMPREENDIMENTOS DE COMBUSTIVEIS EI R$ 3.114.550,00

  • BANCO DA AMAZONIA SA AG BELEM CENTRO R$ 1.723.322,11

  • NICHOLAS ANDRE SILVA FREIRE R$ 1.258.529,47

  • JOSE BRUNO TAONTAKIS MORAIS R$ 244.550,00

  • JOSE MARIA R$ 150.943,00

O Posto também recebeu recursos advindos diretamente da Irmandade da Santa Casa de Birigui, no ano de 2020, muito embora não possua qualquer vínculo contratual com a Organização Social.

Nome/Titular: IRMANDADE DA SANTA CASA DE MISERICORDIA DE BIRIGUI
Data: 29/01/2020
Valor: R$ 1.943,00
Nome Origem/Destino: AUTO POSTO JOÃO PAULO II

Nome/Titular: IRMANDADE DA SANTA CASA DE MISERICORDIA DE BIRIGUI
Data: 20/05/2020
Valor: R$ 1.540,00
Nome Origem/Destino: AUTO POSTO JOÃO PAULO II

Dentro do contexto de lavagem, o Posto foi destinatário de vários depósitos em dinheiro feitos na sua conta bancária. Somente Nicholas Freire fez 58 depósitos, totalizando mais de R$ 1 milhão de reais. José Arnaldo, pai de Nicolas, fez 51 depósitos em favor da empresa, totalizando R$ 1.829.017,64, ao passo que José Bruno, fez 30 depósitos, que totalizaram R$ 244.550,00. Carlos Guimarães, “funcionário” do Posto, realizou 95 depósitos, no valor global de R$ 3.297.483,00. Constatou-se, também, que a Minotauro realizou 31 depósitos para o Posto que, somados, representam a quantia de R$ 3.114.550,00.

Para a PF, não resta dúvidas de que a quadrilha se utilizava de meios sofisticados, como a técnica chamada Smurfing, muito usada pela Máfia Italiana, para burlar investigações e evitar o desbaratamento de operações ilegais. Essa técnica, consistente em diversos depósitos em espécie, fracionando o valor total, permitiu que os investigados diluíssem um volume altíssimo de dinheiro de origem supostamente ilícita, de modo a tirar sua visibilidade e, mais do que isso, impedir a detecção de operações em espécie, com o objetivo de burlar os mecanismos de controle pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), órgão responsável pela inteligência financeira e proteção dos setores econômicos contra a lavagem de dinheiro, uma vez que tais operações estruturadas, se analisadas de forma individual, não ultrapassam o valor limite da comunicação automática ao órgão de inteligência bancária.

A depender do valor e das circunstâncias, os depósitos em dinheiro geram o dever de comunicação pelas instituições financeiras. Em um dos diálogos, por WhatsApp, José Arnaldo solicitou ao Nicolas que enviasse dinheiro para a conta do Posto. No dia 08 de agosto de 2020 foi solicitado R$ 10 mil reais. Já nos dias 10 de agosto e 24 de setembro, foi solicitado, respectivamente, R$ 150 mil e R$ 15 mil, sendo que, neste último caso, os valores foram passados para conta do Posto diretamente da conta da Minotauro.


José Arnaldo – “Me dá 10 mil.  Manda a cara me dá.Nicolas: “Oi ok Papai. Pega no cofre ai ok”
José Arnaldo –“Fais por favor o depósito pra mim. O posto tá sem grana. Manda 150.000 - Quando fazer me avise.José Arnaldo – “Obrigado. Já chegou”

José Arnaldo  - dia 24/09/2020  às 13:13:05:
“Filho, fui somar tudo aqui, eu preciso de 15 mil na conta do posto, nem que eu te devolva amanhã. Pra não poder parar o posto, pra não ter nota aí. Se tu puder me arranjar 15 mil, cê
deposita, se não puder não tem problema.

José Arnaldo – dia 24/09/2020 as  13:13:15.000 na do posto preciso intera 4 títulos.Nicolas: Ok

O Posto também era utilizado para encontros do grupo criminoso. No dia 17 de junho de 2020, Nectaria, mãe de Nicolas, encaminha para o marido, José Arnaldo, por WhatsApp, imagens das câmeras de segurança do posto. Nelas é possível perceber a presença de Nicolas, Cleudson, José Arnaldo e Ana Caroline, esposa de Nicolas. Nas imagens, Cleudson e José Arnaldo mexem em algo que, provavelmente, trata-se de dinheiro em espécie.

Outro personagem de não menos importância no grupo criminoso é Carlos Augusto da Silva Guimarães, funcionário do Posto e diretamente subordinado a José Arnaldo e Nicolas, além de figurar como sócio em três empresas controladas por Nicolas: A Minotauro Group, Auto Posto Minotauro III, a Minotauro Group Posto Minotauro II e a Minotauro Group Agro Inversiones Greco.

Carlos Augusto, não só era testa-de-ferro nas empresas, como também auxiliava os membros da organização criminosa na lavagem de capitais, especialmente com relação à contabilidade e movimentação financeira do Posto. Adicionalmente, Carlos era encarregado de fazer diversos depósitos em espécie nas contas do posto e de demais investigados. Em uma dessas operações, ele realizou três depósitos bancários que totalizam R$ 75 mil reais na conta de Nicholas André Freire. Veja os diálogos:

Carlos: Ei seu Naldo! Tem 18 mil na conta. Se o André depositar 23 mil, eu acho que já dá,. Aí a gente já paga as duas e manda logo o comprovante, porque se depositar 20, até coisar esses 3 mil, vai demorar muito. É capaz do financeiro já não tá mais. [...].
José Arnaldo: Falei com ele. Ele tá lá dentro do Basa lá. Pega lá 3 mil com ele lá e faz o pagamento. Já falei com ele. Ele tá lá dentro do Basa te esperando. Pega os 3 mil com ele lá.

Ato contínuo, José Arnaldo encaminha para Carlos o encaminhamento dos depósitos, sendo R$ 61.598.00 reais na conta de Ernani José M Castro; R$ 60.000.00 reais na conta de Marlene M. Lopes; R$ 178.165.00 na conta de Ronaldo Mesquita Vieira; R$ 209.209.00 reais na conta de Reidimar Marciel Soares e dois valores não identificados nas contas de Valmir Rodrigues Soares e Cleber Alexandre Cordeiro.

No dia 05 de junho de 2020, Carlos e José Arnaldo conversam sobre a movimentação de um grande volume de dinheiro, provavelmente oriunda de desvios do Instituto Panamericano de Gestão IPG , que administrava os hospitais de campanha de Santarém, Castelo dos Sonhos, Itaituba e Breves.


José Arnaldo: Pega 13 mil e 500 do dinheiro lá e dá pra Nectaria. Tá ok?
Carlos: Eu peguei 10 mil e 600 pra depositar aqui no posto e 13 e 500 pra dona Nectaria. No total 24 mil e 100 de lá, viu?
José Arnaldo: Imprime essas contas aí pra mim, rapidinho.
Carlos: Ei seu Naldo! Não deu pra fazer os depósitos, porque tem que fazer
um agendamento no banco primeiro [...].

No dia 04 de setembro de 2020, Carlos envia fotos de dinheiro em espécie, bem como do local onde, aparentemente, o numerário ficaria guardado.


Carlos: Ei seu Naldo! Só tinha nota de 10 e de 20 e só tinha 100 mil lá, rasparam todo. Aí o Alisson falou que 50 mil terça-feira, segunda é feriado, terça-feira pode ir lá pegar os outros 50 mil,? Aí eu só saquei 100 mil. De 10 e de 20, só o que tinha.


CONTINUA NESTA QUARTA25

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